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Deolane Bezerra é presa em SP por suspeita de lavar dinheiro para o PCC; família de Marcola também é alvo
Por Felipe Augusto
Publicado em 21/05/2026 10:17
BRASIL

 Foto: Reprodução/TV Globo

Uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil contra lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) prendeu, na manhã desta Thursday (21), a influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra. Ela foi detida em sua residência, na cidade de Barueri, na Grande São Paulo.

A ação, batizada de Operação Vérnix, também mira a cúpula da facção criminosa. Havia um mandado de prisão preventiva contra Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como o chefe do grupo, que já cumpre pena no Sistema Penitenciário Federal, além de ordens de prisão contra parentes dele.

No total, a Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva e ordens de busca e apreensão. Também foi determinado o bloqueio de R$ 357,5 milhões em ativos financeiros dos investigados e o sequestro de 39 veículos, avaliados em mais de R$ 8 milhões. Só em relação a Deolane Bezerra, o bloqueio estipulado foi de R$ 27 milhões.

O advogado de Deolane, Luiz Imparato, informou que está se "inteirando dos fatos". Bruno Ferullo, que defende Marcola, também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais citados não havia sido localizada até a última atualização desta reportagem.

O esquema e a transportadora de fachada

Segundo as investigações do MP e da Polícia Civil, o esquema de lavagem de dinheiro era estruturado em torno de uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. A empresa era controlada pela cúpula do PCC e funcionava como uma fachada para movimentar recursos ilícitos.

O dinheiro da facção era repassado pela transportadora para diversas contas bancárias com o objetivo de pulverizar os valores e dificultar o rastreamento policial. De acordo com o inquérito, duas dessas contas receptoras estavam em nome de Deolane Bezerra.

Foto: Reprodução

Além da influenciadora, foram alvos da operação:

  • Everton de Souza (vulgo "Player"): Preso na operação, é apontado como o operador financeiro do esquema. Mensagens interceptadas mostram "Player" orientando a distribuição do dinheiro e indicando contas para depósito;

  • Paloma Sanches Herbas Camacho: Sobrinha de Marcola, com mandado de prisão. Ela estaria em Madri, na Espanha;

  • Alejandro Camacho (irmão de Marcola) e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho (sobrinho): Também alvos de mandados de prisão. Leonardo estaria na Bolívia e é suspeito de ser o destinatário final do dinheiro lavado;

  • Giliard Vidal dos Santos: Filho de criação de Deolane, foi alvo de mandados de busca e apreensão, assim como um contador ligado ao grupo.

Deolane Bezerra passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome da influenciadora chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na Wednesday (20), sendo presa na manhã seguinte.

Depósitos fracionados e técnica de 'smurfing'

O cruzamento de dados bancários e relatórios financeiros indicou que Deolane Bezerra e suas empresas receberam valores expressivos de origem não comprovada.

Entre 2018 e 2021, a conta da influenciadora recebeu R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados, sempre em valores abaixo de R$ 10 mil. Segundo a polícia, essa técnica — conhecida como smurfing — é utilizada propositalmente para burlar os mecanismos de controle e não disparar alertas automáticos nos órgãos de fiscalização financeira (como o Coaf). O intermediador desses repasses seria Everton de Souza, o "Player".

A investigação também identificou quase 50 depósitos, totalizando R$ 716 mil, destinados a duas empresas de Deolane. Os repasses foram feitos por uma suposta empresa de crédito cujo responsável legal é um morador da Bahia que recebe cerca de um salário mínimo por mês.

A polícia informou que não foram identificados pagamentos de volta relacionados a esses créditos ou qualquer prestação de serviços advocatícios por parte de Deolane que justificasse as transações. Para os investigadores, a projeção pública e as empresas da influenciadora eram usadas como uma "camada de aparente legalidade" para mascarar o dinheiro do crime organizado.

Risco de fuga e sofisticação: Ao decretar as prisões preventivas, a Justiça de São Paulo destacou que os investigados continuavam operando o esquema criminoso, inclusive de dentro de unidades prisionais. O magistrado responsável ressaltou o risco real de destruição de provas, ocultação de patrimônio e o perigo de fuga, uma vez que parte dos envolvidos já se encontra no exterior.

Como a polícia chegou até Deolane

A apuração que resultou na Operação Vérnix começou em 2019, após a Polícia Penal apreender bilhetes e manuscritos com dois detentos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos sucessivos:

  1. Primeiro Inquérito: Focou nos detentos que guardavam os manuscritos, revelando ordens internas da facção e planos de ataques contra servidores públicos. Ambos foram condenados e transferidos para presídios federais.

  2. Segundo Inquérito (Operação Lado a Lado): Investigou a citação a uma "mulher da transportadora" nos bilhetes. Ela foi identificada como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da Lopes Lemos Transportes (atualmente foragida). A operação revelou que a transportadora funcionava como o braço financeiro do PCC.

  3. Terceiro Inquérito (Operação Vérnix): Iniciado após a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central e homem de confiança de Marcola. No aparelho, policiais encontraram comprovantes de depósitos e conversas que ligavam diretamente as contas de Deolane Bezerra e "Player" ao esquema de lavagem de capitais da facção.

Marcola e seu irmão, Alejandro Camacho, que já cumprem pena na Penitenciária Federal de Brasília, serão formalmente notificados no presídio sobre as novas ordens de prisão preventiva.

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