Offline
Ao atribuir enchentes à “falta de manutenção”, vereadora Letícia Castaldi ignora impacto de evento climático extremo em São Manuel
Por Moisés Moura
Publicado em 24/02/2026 20:42
São Manuel

Após declarações da vereadora Letícia Castaldi criticando a gestão municipal pelos alagamentos registrados em São Manuel, a reportagem foi buscar dados técnicos. Informações de órgãos oficiais indicam que os transtornos recentes estão diretamente ligados a um evento climático extremo, considerado atípico para o município.

Nas últimas 24 horas, o acumulado de chuva chegou a 156 milímetros, sendo 71 milímetros registrados em poucas horas. De acordo com parâmetros utilizados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), volumes superiores a 100 mm em 24 horas já são classificados como chuva intensa, com alto potencial de provocar alagamentos, enxurradas e transbordamentos, independentemente de intervenções estruturais recentes.

Dados de monitoramento hidrológico também indicam que o Rio Paraíso atingiu saturação hidráulica, com vazão estimada em 70 mil metros cúbicos por hora. Segundo critérios adotados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), quando o solo da bacia já se encontra encharcado, a capacidade de infiltração é drasticamente reduzida, fazendo com que praticamente toda a água da chuva escoe superficialmente — cenário que potencializa enchentes mesmo em locais com manutenção regular de drenagem.

Meteorologistas explicam que episódios concentrados em curto intervalo de tempo sobrecarregam qualquer sistema urbano de drenagem, que é dimensionado com base em médias históricas e tempo de recorrência. Eventos extremos vêm se tornando mais frequentes em razão das mudanças climáticas globais, fenômeno amplamente documentado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que aponta aumento na intensidade e irregularidade das precipitações na América do Sul.

Técnicos ressaltam que a afirmação de que os problemas decorrem exclusivamente de falta de manutenção desconsidera fatores como saturação do solo, aumento abrupto de vazão em rios urbanos e capacidade limitada de galerias pluviais diante de chuvas excepcionais. Em eventos dessa magnitude, mesmo cidades com infraestrutura moderna registram impactos semelhantes.

Especialistas também ponderam que a criação de frentes parlamentares pode contribuir para debates de médio e longo prazo, mas não interfere na resposta imediata a fenômenos meteorológicos extremos já em curso. A mitigação estrutural envolve planejamento integrado de bacia hidrográfica, obras de macrodrenagem, contenção de encostas e adaptação climática — medidas que dependem de recursos técnicos e financeiros e, muitas vezes, de apoio estadual e federal.

Órgãos de monitoramento seguem acompanhando a situação e reforçam que o volume registrado configura um episódio climático severo, cuja intensidade supera padrões considerados usuais para o período.

A orientação das autoridades é manter atenção às atualizações meteorológicas e às recomendações da Defesa Civil enquanto persistirem as condições de instabilidade.

 
Comentários
Comentário enviado com sucesso!