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Burocracia, impunidade e resgate extremo: O dilema da Adorável Vira-Lata no combate aos maus-tratos em São Manuel
Apuração exclusiva do Portal São Manuel Conectado mostra que o caso dos seis cães resgatados na COHAB 2 está longe de ser um episódio isolado; enquanto voluntários tentam salvar animais, novas denúncias chegam e faltam espaço, adoção e estrutura
Por Moisés Moura (MTB 01022885/SP)
Publicado em 06/10/2026 21:25
São Manuel

Seis cães foram retirados de uma residência no bairro COHAB 2, em São Manuel, nesta segunda-feira (5), após serem encontrados em condições graves de maus-tratos. Mas, para quem acompanha de perto a proteção animal no município, o episódio está longe de ser um caso isolado.

A apuração exclusiva do Portal São Manuel Conectado revela uma realidade que se repete: enquanto voluntários conseguem resgatar um animal em situação de abandono ou maus-tratos, outra denúncia surge. Depois de um resgate, começam os problemas com espaço, tratamento veterinário, alimentação, lares temporários e adoção.

É um ciclo que integrantes da Organização da Sociedade Civil (OSC) Adorável Vira-Lata resumem, na prática, como uma tentativa permanente de “enxugar gelo”.

De um lado estão os animais vítimas da violência, negligência e abandono humano. Do outro, os voluntários que tentam garantir a eles o mínimo de dignidade. No meio do caminho, segundo relatos obtidos pelo Portal São Manuel Conectado, estão ainda a burocracia, as dificuldades para encaminhar denúncias e a falta de estrutura suficiente para acolher todos os animais que precisam de ajuda.

Este não foi o primeiro — e provavelmente não será o último

O caso da COHAB 2 chamou atenção pela gravidade. Seis animais precisaram ser retirados do imóvel, entre eles uma cadela lactante e três filhotes recém-nascidos.

Mas a situação enfrentada pela entidade vai muito além desses seis cães.

A cada novo chamado, os voluntários precisam decidir como retirar o animal do sofrimento sem necessariamente ter um local disponível para recebê-lo. A dificuldade para encontrar espaço e lares temporários é enorme, assim como a busca por famílias dispostas a adotar animais que muitas vezes chegam traumatizados, debilitados ou necessitando de tratamento.

Na prática, o trabalho não termina quando o animal é retirado da situação de maus-tratos.

Começa ali outra batalha.

É necessário conseguir atendimento veterinário, medicamentos, alimentação, exames, isolamento quando há suspeita de doenças transmissíveis, acompanhamento e, posteriormente, uma família responsável para adoção.

E enquanto uma dessas etapas ainda está sendo resolvida, outra denúncia pode chegar.

É por isso que os voluntários descrevem a rotina como uma luta interminável.

Anjos que enfrentam a violência humana

Por trás dos resgates existem pessoas que dedicam tempo, dinheiro e esforço para defender animais que não conseguem pedir ajuda.

São voluntários que enfrentam situações de abandono, fome, doenças, correntes, negligência e violência.

Mas também precisam lidar com outro tipo de obstáculo: o próprio sistema.

Segundo relatos obtidos pelo Portal São Manuel Conectado, existem situações em que a entidade tenta intermediar casos para diminuir imediatamente o sofrimento do animal, inclusive arcando com exames e tratamentos, diante da dificuldade de conseguir uma resposta rápida para responsabilizar os responsáveis.

“A gente tenta apaziguar no sentido de ajudar só o animal e não fazer a denúncia, porque não temos o respaldo da polícia. Mas a partir de agora vamos mudar nossa conduta”, relatou uma liderança da entidade.

A mudança de postura anunciada pela Adorável Vira-Lata ocorre justamente diante da gravidade do caso da COHAB 2.

A entidade afirma que pretende cobrar uma atuação mais rigorosa nos casos de suspeita de maus-tratos e acompanhar os procedimentos para que a legislação seja efetivamente aplicada.

Enquanto o resgate acontece, a conta chega

Os seis animais retirados da residência agora enfrentam uma nova batalha: sobreviver.

Os exames veterinários apontaram problemas importantes de saúde.

Os dois cães da raça Husky Siberiano foram diagnosticados com erliquiose, conhecida como doença do carrapato, e já iniciaram tratamento.

O Golden Retriever Mufasa apresenta anemia severa e caquexia extrema. Amostras de sangue foram encaminhadas para exames laboratoriais de PCR em Botucatu, com o objetivo de investigar possíveis coinfecções, incluindo babesiose e outras hemoparasitoses.

A fêmea Husky e os três filhotes neonatos permanecem em local protegido, recebendo cuidados e suplementação adequados para a fase de amamentação.

Cada diagnóstico representa mais uma despesa e mais uma responsabilidade para quem assumiu o cuidado dos animais.

Falta de espaço transforma cada resgate em um novo desafio

Um dos maiores problemas enfrentados pela entidade é justamente a falta de espaço.

Não basta retirar um animal de uma situação de maus-tratos. É preciso ter onde colocá-lo.

A ausência de estrutura suficiente faz com que os voluntários dependam de lares temporários e de pessoas dispostas a abrir espaço em suas próprias casas.

Quando esses locais não aparecem, o problema se torna ainda maior.

A entidade precisa administrar os animais que já estão sob seus cuidados ao mesmo tempo em que recebe novas denúncias.

Resgata um, aparece outro. Resolve um caso, surge uma nova denúncia.

E assim o ciclo continua.

A dificuldade de adoção mantém o problema vivo

Outro gargalo está na adoção.

Animais adultos, doentes ou que passaram por situações de violência podem permanecer durante meses aguardando uma família.

Enquanto isso, continuam gerando custos e ocupando espaços que poderiam ser utilizados para novos resgates.

A situação cria uma espécie de fila invisível: existem animais esperando adoção, outros esperando tratamento, novos casos aguardando acolhimento e denúncias chegando diariamente.

Sem uma rede maior de lares temporários, adotantes e apoio financeiro, a capacidade da entidade chega rapidamente ao limite.

A burocracia também vira obstáculo

Além de enfrentar diretamente as consequências dos maus-tratos, os voluntários relatam dificuldades relacionadas aos procedimentos necessários para que os responsáveis sejam efetivamente investigados e responsabilizados.

A entidade defende que os casos graves não sejam tratados apenas como situações para negociação ou mediação.

A legislação brasileira prevê punições para quem pratica maus-tratos contra animais.

O artigo 32 da Lei Federal nº 9.605/1998, com as alterações promovidas pela chamada Lei Sansão (Lei nº 14.064/2020), prevê, nos casos envolvendo cães e gatos, pena de reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda.

Para a entidade, fazer a lei valer significa também garantir que denúncias sejam investigadas e que situações de maus-tratos não voltem a acontecer com os mesmos animais ou com outros.

Um problema que não termina com o resgate

O caso da COHAB 2 termina para os animais apenas quando eles estiverem recuperados, seguros e vivendo com uma família responsável.

Para os voluntários, porém, a luta continua.

O próximo chamado pode chegar a qualquer momento.

Pode ser um cachorro preso permanentemente em uma corrente, um animal sem alimentação, um filhote abandonado, um cão doente sem atendimento ou outra situação de violência.

E novamente surgirá a mesma pergunta: onde colocar? Quem vai cuidar? Quem vai pagar o tratamento? Quem vai adotar? E quem será responsabilizado?

Enquanto essas respostas não chegam, os voluntários seguem fazendo o que conseguem.

São pessoas que tentam devolver dignidade a animais vítimas de uma violência que eles próprios não têm como denunciar.

O problema é que não existe espaço infinito, não existem recursos infinitos e não existem voluntários suficientes para atender sozinhos a uma demanda que parece não ter fim.

Por isso, o episódio dos seis cães da COHAB 2 não deve ser visto apenas como mais um caso de maus-tratos.

Ele expõe um problema maior: enquanto houver abandono, negligência e violência, e enquanto a estrutura de proteção não acompanhar a quantidade de denúncias, o trabalho continuará parecendo uma tentativa de enxugar gelo.

A Adorável Vira-Lata permanece como fiel depositária dos animais resgatados e reforça a necessidade de apoio da população, especialmente com lares temporários, adoções responsáveis e auxílio para os custos veterinários.

A apuração do caso envolvendo a tutora dos animais segue na Polícia Civil.

O Portal São Manuel Conectado continuará acompanhando o caso e os desdobramentos das investigações.

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