A morte de um animal de estimação pode provocar uma dor intensa e um processo de luto semelhante ao enfrentado após a perda de um familiar. Com a mudança na relação entre humanos e pets, cada vez mais considerados integrantes da família, especialistas afirmam que esse sofrimento deve ser reconhecido e acolhido.
Segundo a psicóloga Kelly Almeida, especialista em atendimento clínico psicanalítico, o vínculo criado entre tutores e animais é baseado na convivência, no afeto e na rotina compartilhada, mesmo sem existir uma ligação de sangue.
"Hoje o pet também faz parte da família. É um vínculo afetivo construído pela qualidade da relação. Quando ele morre, surgem a dor, a saudade e a sensação de vazio", explica.
De acordo com a especialista, o luto pela perda de um animal pode envolver sentimentos como tristeza profunda, culpa, conflitos internos e dificuldade para voltar às atividades do dia a dia. Em alguns casos, a situação pode contribuir para o desenvolvimento de quadros depressivos.
Durante anos, esse tipo de sofrimento foi minimizado por muitas pessoas, com frases como "era só um pet". Porém, a psicóloga destaca que a perda é significativa e precisa ser validada.

"Essa dor merece ser reconhecida. O animal ocupa um espaço emocional importante na vida do tutor", afirma.
O processo de despedida, segundo Kelly, pode começar antes mesmo da morte do animal, principalmente quando há o diagnóstico de uma doença grave. O tutor passa a conviver com o medo da perda, mas também mantém a esperança de recuperação.
Foi o que aconteceu com Erberson Ohama, tutor da cachorrinha Bianca, uma pinscher de 17 anos. O animal foi diagnosticado com um tumor na bexiga em junho e passou por atendimentos médicos antes de morrer no dia 1º de julho.
"Ela era minha companheira. Dormia comigo, era como uma filha", contou Erberson.
Bianca chegou à família ainda filhote e acompanhou o tutor por muitos anos. Mesmo depois de passar um período morando com a avó dele, continuou demonstrando carinho quando o encontrava.
Após a morte da cadela, Erberson decidiu realizar um velório e uma cerimônia de cremação como forma de homenagear a companheira. Ele recebeu a urna com as cinzas, uma carta, lembranças com as marcas da pata e do focinho do animal, além de uma pequena quantidade de pelos guardada como recordação.
"Assim como fazemos uma despedida para um familiar, acredito que eles também merecem esse respeito", afirmou.
O tutor também cuida da irmã de Bianca, que nasceu na mesma ninhada. Segundo ele, antes da morte da cadela, a outra cachorra permaneceu ao lado dela por alguns minutos, em um momento de despedida.
Especialistas reforçam que não existe um tempo determinado para superar a perda de um animal. Buscar apoio de familiares, amigos ou profissionais de saúde mental pode ajudar no enfrentamento do luto e na reorganização da rotina após a despedida.