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PM usa dados regionais para justificar cerco em trevo de São Manuel, mas trecho urbano não registra mortes há anos
Enquanto PMRv concentra fiscalização em acessos urbanos sem histórico de mortes, dados revelam que o real perigo de letalidade no trecho está ligado à falta de barreiras contra atentados à vida em viadutos administrados por concessionária
Por Moisés Moura
Publicado em 17/07/2026 17:44
São Manuel

O recente posicionamento do Comando de Policiamento Rodoviário (CPRv) do Estado de São Paulo sobre os critérios de fiscalização em São Manuel (SP) expõe um descompasso entre a justificativa estatística da corporação e a realidade geográfica dos acidentes na região.

Em nota oficial emitida após questionamentos do portal São Manuel Conectado, a Polícia Militar Rodoviária (PMRv) negou a existência de metas de multas e justificou a concentração de viaturas no principal trevo de acesso ao município com base em índices de letalidade. Segundo o comando, a cidade concentrou 17,8% das mortes do pelotão em 2025 (8 óbitos) e saltou para 25% em 2026 (3 óbitos).

O argumento técnico, contudo, silencia sobre um detalhe crucial: nenhum desses sinistros fatais ocorreu no trevo urbano onde o policiamento costuma se fixar.

Estatística macro, fiscalização micro

A discrepância reside na distância entre o discurso de preservação de vidas e a escolha do ponto de operação. Para justificar a presença ostensiva no acesso à cidade — área de baixa velocidade e tráfego essencialmente urbano —, a corporação citou três acidentes fatais recentes.

Nenhum deles, porém, aconteceu perto dali. Dois ocorreram na Rodovia Marechal Rondon (SP-300), nos quilômetros 275,4 e 270,3, e o terceiro foi uma colisão frontal no quilômetro 207,9 da Rodovia João Melão (SP-255). São trechos de pista expressa, caracterizados por alta velocidade e tráfego pesado, cujas dinâmicas de acidentes diferem completamente do fluxo de um trevo de entrada.

Moradores e condutores locais apontam que o perímetro urbano do acesso a São Manuel não registra acidentes fatais há anos. A desconexão geográfica alimenta o ceticismo da população, que vê na escolha do local uma "comodidade operacional" voltada à autuação burocrática — como documentação e itens de segurança — em vez de uma presença dissuasora nos pontos de real perigo das rodovias.

Onde a vida realmente corre risco: o silêncio nos pontilhões

Se por um lado o aparato policial se mobiliza para coibir infrações administrativas no asfalto plano, por outro, a real crise de letalidade do trecho passa despercebida pelas autoridades e pela iniciativa privada.

Um levantamento realizado pelo São Manuel Conectado revela que o índice de ocorrências graves registradas nos dois pontilhões localizados no trecho sob concessão é drasticamente maior do que a letalidade provocada por acidentes de trânsito na região. A recorrência de tragédias nesses locais expõe uma vulnerabilidade física crônica na infraestrutura da rodovia.

A reportagem apurou que sucessivos ofícios foram enviados à concessionária responsável pelo trecho, pleiteando a instalação de telas ou grades de proteção nos viadutos para dificultar os constantes atentados contra a vida. A empresa, no entanto, negou todos os pedidos. A recusa em adotar barreiras preventivas simples contrasta com o discurso oficial de "prioridade na preservação de vidas", deixando desamparado o ponto estatisticamente mais sensível da rodovia no município.

O nó da lei: apreensões sob lupa Outro ponto de atrito na região envolve a retenção de veículos. O comando relembrou que a Lei Federal nº 14.229/2021 proíbe o recolhimento ao pátio quando a irregularidade não oferecer risco iminente, estipulando prazo de 15 dias para regularização. A própria menção da PMRv a canais de denúncia da Corregedoria funciona como um reconhecimento implícito de que desvios na aplicação da norma podem estar ocorrendo na ponta do serviço.

O peso da transparência

Embora o CPRv defenda que o planejamento é estritamente técnico e pautado pelos princípios da impessoalidade e moralidade, a insistência em posicionar o policiamento longe das faixas de rolamento onde as vidas foram de fato perdidas — ignorando, em paralelo, a necessidade de intervenção nos pontilhões — fragiliza a narrativa preventiva.

O comando se prontificou a fornecer, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados comparativos entre as multas aplicadas no perímetro urbano e nas pistas expressas. A abertura desses dados, somada à necessária cobrança sobre a concessionária pelos pontos cegos da segurança em seus viadutos, será o teste definitivo para esclarecer se a gestão das rodovias em São Manuel visa, prioritariamente, salvar vidas ou gerenciar burocracias.

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