O recente posicionamento do Comando de Policiamento Rodoviário (CPRv) do Estado de São Paulo sobre os critérios de fiscalização em São Manuel (SP) expõe um descompasso entre a justificativa estatística da corporação e a realidade geográfica dos acidentes na região.
Em nota oficial emitida após questionamentos do portal São Manuel Conectado, a Polícia Militar Rodoviária (PMRv) negou a existência de metas de multas e justificou a concentração de viaturas no principal trevo de acesso ao município com base em índices de letalidade. Segundo o comando, a cidade concentrou 17,8% das mortes do pelotão em 2025 (8 óbitos) e saltou para 25% em 2026 (3 óbitos).
O argumento técnico, contudo, silencia sobre um detalhe crucial: nenhum desses sinistros fatais ocorreu no trevo urbano onde o policiamento costuma se fixar.

Estatística macro, fiscalização micro
A discrepância reside na distância entre o discurso de preservação de vidas e a escolha do ponto de operação. Para justificar a presença ostensiva no acesso à cidade — área de baixa velocidade e tráfego essencialmente urbano —, a corporação citou três acidentes fatais recentes.
Nenhum deles, porém, aconteceu perto dali. Dois ocorreram na Rodovia Marechal Rondon (SP-300), nos quilômetros 275,4 e 270,3, e o terceiro foi uma colisão frontal no quilômetro 207,9 da Rodovia João Melão (SP-255). São trechos de pista expressa, caracterizados por alta velocidade e tráfego pesado, cujas dinâmicas de acidentes diferem completamente do fluxo de um trevo de entrada.
Moradores e condutores locais apontam que o perímetro urbano do acesso a São Manuel não registra acidentes fatais há anos. A desconexão geográfica alimenta o ceticismo da população, que vê na escolha do local uma "comodidade operacional" voltada à autuação burocrática — como documentação e itens de segurança — em vez de uma presença dissuasora nos pontos de real perigo das rodovias.

Onde a vida realmente corre risco: o silêncio nos pontilhões
Se por um lado o aparato policial se mobiliza para coibir infrações administrativas no asfalto plano, por outro, a real crise de letalidade do trecho passa despercebida pelas autoridades e pela iniciativa privada.
Um levantamento realizado pelo São Manuel Conectado revela que o índice de ocorrências graves registradas nos dois pontilhões localizados no trecho sob concessão é drasticamente maior do que a letalidade provocada por acidentes de trânsito na região. A recorrência de tragédias nesses locais expõe uma vulnerabilidade física crônica na infraestrutura da rodovia.
A reportagem apurou que sucessivos ofícios foram enviados à concessionária responsável pelo trecho, pleiteando a instalação de telas ou grades de proteção nos viadutos para dificultar os constantes atentados contra a vida. A empresa, no entanto, negou todos os pedidos. A recusa em adotar barreiras preventivas simples contrasta com o discurso oficial de "prioridade na preservação de vidas", deixando desamparado o ponto estatisticamente mais sensível da rodovia no município.
O nó da lei: apreensões sob lupa Outro ponto de atrito na região envolve a retenção de veículos. O comando relembrou que a Lei Federal nº 14.229/2021 proíbe o recolhimento ao pátio quando a irregularidade não oferecer risco iminente, estipulando prazo de 15 dias para regularização. A própria menção da PMRv a canais de denúncia da Corregedoria funciona como um reconhecimento implícito de que desvios na aplicação da norma podem estar ocorrendo na ponta do serviço.

O peso da transparência
Embora o CPRv defenda que o planejamento é estritamente técnico e pautado pelos princípios da impessoalidade e moralidade, a insistência em posicionar o policiamento longe das faixas de rolamento onde as vidas foram de fato perdidas — ignorando, em paralelo, a necessidade de intervenção nos pontilhões — fragiliza a narrativa preventiva.
O comando se prontificou a fornecer, via Lei de Acesso à Informação (LAI), dados comparativos entre as multas aplicadas no perímetro urbano e nas pistas expressas. A abertura desses dados, somada à necessária cobrança sobre a concessionária pelos pontos cegos da segurança em seus viadutos, será o teste definitivo para esclarecer se a gestão das rodovias em São Manuel visa, prioritariamente, salvar vidas ou gerenciar burocracias.