Ordens diretas revelam cobrança implacável por produtividade operacional e evidenciam que o cerco de multas no trevo de São Manuel faz parte de uma engrenagem de metas que asfixia motoristas em todo o estado.
SÃO MANUEL – Um vazamento de comunicações internas obtido com exclusividade pelo Portal São Manuel Conectado na noite desta quarta-feira (15) expõe as vísceras das diretrizes operacionais do alto comando da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo. Os documentos revelam que a polêmica pressão por produtividade que asfixia motoristas locais não é um fato isolado em São Manuel, mas sim uma engrenagem sistêmica de cobrança de cotas de multas ditada pelas altas patentes da corporação em todo o território paulista.
Anteriormente, relatos obtidos pela reportagem indicavam que a intensa fiscalização no trevo de acesso às Cohabs 1 e 2, em São Manuel (a 260 km de São Paulo), decorria de uma "meta" informal de 18 multas diárias por equipe. O novo vazamento de mensagens, trocadas diretamente entre oficiais e sargentos responsáveis por eixos rodoviários de grande fluxo como a Rodovia Castello Branco (SP-280) e a Rodovia Raposo Tavares (SP-270), comprova que a cúpula da corporação pune administrativamente a redução de infrações nas estradas, exigindo que a tropa "fabrique" números para alimentar estatísticas.

A engrenagem do alto comando: Multas sob encomenda na Castello e Raposo
Na noite desta quarta-feira, a redação teve acesso à transcrição de uma ordem encaminhada pelo Tenente responsável pelo trecho de Barueri e São Paulo ao grupo de sargentos (CGPs) da 4ª Companhia do 1º e 2º Pelotão. Na mensagem, o oficial cobra de forma explícita que as equipes "revertem o cenário" de queda nas autuações, tratando a redução de multas como um problema de "produtividade".
De acordo com as diretrizes do comando, a redução de 30% nas multas de motocicletas e de 60% nas infrações por falta de cinto de segurança no período comparado ao mês anterior é vista como uma falha operacional — ignorando o fato de que a diminuição das infrações representa, em tese, um avanço na conscientização e na segurança do trânsito.

"Senhores CGPs, boa noite! Peço especial atenção e empenho das equipes na intensificação da fiscalização de motocicletas e do uso do cinto de segurança. Atualmente, estamos com tendência de redução de aproximadamente 30% nas autuações relacionadas à fiscalização de motocicletas e de 60% nas autuações por falta do uso do cinto de segurança. Solicito que orientem e acompanhem as equipes para que direcionem esforços às abordagens de motocicletas e à fiscalização do uso do cinto de segurança, sempre com foco na prevenção de sinistros, na preservação de vidas. Conto com o comprometimento de todos para revertermos esse cenário e mantermos a produtividade operacional compatível com a qualidade do serviço prestado pela 4ª Cia, 1º e 2º Pelotão."
Um policial rodoviário ouvido pela reportagem, sob rígido compromisso de anonimato por medo de severas retaliações disciplinares, explicou como a pressão do alto comando distorce o trabalho nas rodovias.
Print exclusivo obtido pela reportagem revela orientações e metas estabelecidas pelo alto escalão da Polícia Rodoviária de São Paulo para todos os integrantes do 5º Batalhão de Polícia Rodoviária (5º BPRv).
"A orientação é para fazermos as multas que os comandantes acham que dão 'mais mídia' e números rápidos. Se o motorista está consciente e cometendo menos infrações, nós somos cobrados da mesma forma. Temos que fazer as multas que eles pedem, e não apenas o que de fato constatamos nas vias. Fica quase impossível trabalhar com ética dessa maneira, e essa cobrança implacável está ocorrendo no estado inteiro", desabafou o militar.
O "Atalho" de São Manuel para fugir da Rodovia Marechal Rondon
Esse cenário de cobrança por números explica por que o principal trevo de acesso de São Manuel virou um ponto de saturação policial. Segundo depoimentos, as patrulhas evitam realizar fiscalizações rigorosas no leito principal da Rodovia Marechal Rondon (SP-300) devido à altíssima velocidade em que os veículos trafegam, o que torna as abordagens perigosas e ineficazes para bater a cota diária de 18 autuações por equipe.
Como "atalho" para garantir a produtividade exigida pelo alto comando sem correr riscos na rodovia expressa, as equipes concentram o policiamento no trevo de São Manuel. Ali, os condutores reduzem drasticamente a velocidade para acessar o município, tornando-se alvos fáceis para autuações rápidas de qualquer detalhe administrativo.

"Na Rondon é quase inviável bater as 18 multas diárias de forma segura. No trevo de São Manuel o fluxo de trabalhadores e motociclistas é constante e todos passam devagar. É onde a meta do dia é garantida de forma rápida e sem sobressaltos para a equipe", detalhou o policial.
Repercussão e denúncias na comunidade
As novas revelações dão contornos de realidade às denúncias que vinham sendo veiculadas pelo radialista local Sandro Dálio. Em seu programa "Sandro Dálio Show", o comunicador já vinha contestando publicamente a predileção inexplicável e a frequência de operações policiais no acesso a São Manuel. "É legal? É legal. Mas não na quantidade que estão fazendo", apontou Dálio na ocasião, ecoando o descontentamento e o sufocamento financeiro dos moradores e trabalhadores que precisam cruzar diariamente o trevo.
Para especialistas em segurança pública ouvidos sob reserva, a existência de metas numéricas rígidas para aplicação de multas desvirtua a função constitucional da Polícia Rodoviária. Em vez de atuar de forma preventiva nos pontos com maiores índices de acidentes graves, as patrulhas acabam sendo deslocadas para locais de fácil abordagem apenas para satisfazer estatísticas de produtividade das companhias.
Nota da Redação: O Portal São Manuel Conectado entrou em contato com o Comando de Policiamento Rodoviário da Polícia Militar do Estado de São Paulo para solicitar esclarecimentos sobre o vazamento das ordens de produtividade operacional e a estipulação de metas de autuação em todo o estado. Até a publicação desta matéria, nenhuma resposta oficial foi obtida. O espaço permanece aberto para manifestação das autoridades.