A morte do cachorro comunitário conhecido como Orelha, após sofrer uma sessão de tortura, reacendeu o alerta sobre a prática de violência extrema contra animais transmitida ao vivo em grupos fechados na internet, especialmente na plataforma Discord.
O caso ocorreu no início de janeiro, em Florianópolis (SC). O animal, que era conhecido por moradores da região por ser dócil e circular livremente pelo bairro, foi encontrado gravemente ferido e agonizando. Ele chegou a ser levado a uma clínica veterinária, mas não resistiu aos ferimentos e precisou ser submetido à eutanásia.
Segundo a Polícia Civil, quatro adolescentes foram identificados como suspeitos de envolvimento no crime. Celulares e computadores foram apreendidos e encaminhados para perícia. A investigação apura se a agressão foi transmitida ao vivo e compartilhada em grupos online.
Em entrevista à BBC News Brasil, a juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri, afirmou que o episódio não é isolado e faz parte de um fenômeno maior. De acordo com ela, cenas de tortura contra animais vêm sendo exibidas com frequência em grupos virtuais, muitas vezes com transmissões ao vivo.
“O que fizeram com o cão Orelha acontece todas as noites em muitas casas do Brasil, ao vivo no Discord”, alertou a magistrada.
Ainda segundo a juíza, há monitoramento de grupos onde esse tipo de conteúdo circula, com relatos de que dezenas de cães e gatos são torturados e mortos diariamente nesses ambientes virtuais. Para ela, a exposição constante de adolescentes a conteúdos violentos pode levar à banalização da crueldade e à prática de crimes cada vez mais graves.
A magistrada também chamou atenção para a responsabilidade das famílias e das plataformas digitais, destacando a falta de supervisão no uso da internet por crianças e adolescentes. Ela reforçou que a divulgação da identidade dos menores envolvidos pode violar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e estimular novos episódios.
O crime é investigado com base na Lei de Crimes Ambientais, que prevê pena de reclusão e multa para maus-tratos contra animais. No caso de menores de idade, são aplicadas medidas socioeducativas.
A polícia segue apurando se há outros envolvidos e se os suspeitos participavam de comunidades online dedicadas à disseminação de violência.