Registros de câmeras de segurança mostram a movimentação da pesquisadora Soledad Palameta Miller e do marido dela, o doutorando Michael Edward Miller, dentro de áreas restritas do Laboratório de Virologia da Unicamp. As imagens fazem parte do inquérito da Polícia Federal que investiga o desaparecimento de amostras de vírus da universidade.
As gravações mostram acessos ao laboratório em horários considerados atípicos, incluindo períodos noturnos, fins de semana e o recesso acadêmico. Em algumas ocasiões, os dois aparecem entrando em áreas de biossegurança sem os equipamentos de proteção exigidos.
As câmeras não registraram diretamente o momento em que os frascos foram retirados dos biofreezers. Segundo o relatório de incidente, porém, as imagens, os registros de acesso por biometria e a constatação do desaparecimento das amostras são apontados como indícios relacionados à retirada do material.
O caso veio à tona em fevereiro de 2026 e passou a ser investigado pela Polícia Federal. Pelo menos 24 cepas de vírus teriam sido retiradas do laboratório do Instituto de Biologia e posteriormente encontradas em outros prédios da própria universidade.
Entradas em áreas restritas
Segundo a investigação, Michael circulava pelos laboratórios Geral, NB-2 e NB-3, incluindo a área de biossegurança máxima, em diferentes horários e durante períodos em que não havia supervisão no local.
Em algumas gravações, ele aparece entrando no laboratório NB-3 sem os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários para a manipulação de agentes infecciosos.
Soledad também foi registrada acessando áreas restritas do complexo laboratorial. De acordo com o processo, ela havia se desligado formalmente do grupo de pesquisa em janeiro de 2025.
Caixas e materiais
A investigação identificou diferentes episódios de movimentação de volumes dentro do laboratório.
Em 10 de dezembro de 2025, Soledad foi registrada deixando o local com duas caixas de isopor. No dia seguinte, Michael entrou com duas caixas semelhantes vazias e deixou o laboratório sem elas.
Em 23 de dezembro, durante o recesso de fim de ano, ele foi filmado saindo do prédio com três caixas transparentes contendo materiais.
Já em 2 de fevereiro de 2026, Michael entrou no laboratório com uma mochila e uma caixa de papelão e deixou o local cerca de duas horas depois carregando os objetos.
Câmeras ficaram sem registrar imagens
Um dos episódios considerados relevantes pela investigação ocorreu na noite de 24 de fevereiro.
Às 21h36, Michael entrou no laboratório carregando uma caixa de papelão. Doze minutos depois, às 21h48, as câmeras deixaram de registrar imagens por quase duas horas.
Durante o período sem imagens, o sistema biométrico continuou registrando acessos de Michael à sala NB-3. As câmeras voltaram a funcionar às 23h38 e, poucos minutos depois, às 23h46, ele foi filmado deixando o prédio carregando um objeto.
Descoberta das amostras desaparecidas
Na manhã de 25 de fevereiro, Michael retornou ao laboratório às 7h28. Segundo os registros, ele acessou a sala onde estavam os biofreezers por aproximadamente um minuto, entre 7h33 e 7h34.
Às 7h35, deixou o laboratório com uma caixa de isopor branca, que permaneceu temporariamente do lado de fora antes de sua saída.
Pouco mais de uma hora depois, às 8h46, funcionários perceberam que o alarme de um dos biofreezers havia sido acionado. Na verificação, constataram que caixas contendo amostras de vírus haviam sido retiradas dos suportes de armazenamento.
Embora as câmeras não mostrem diretamente a retirada dos frascos, a Polícia Federal e a perícia consideram que o cruzamento das imagens, dos registros biométricos e do desaparecimento das amostras sustenta os indícios investigados no caso.
As suspeitas e responsabilidades ainda são objeto de investigação pelas autoridades.