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PF aponta que comandante do voo 2283 foi promovido sem experiência mínima e pressionado a omitir panes
Por Felipe Augusto
Publicado em 08/08/2026 10:32
SÃO PAULO

Relatório final da Polícia Federal sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), aponta falhas na gestão da companhia e relaciona a rápida promoção do comandante Danilo Santos Romano à falta de experiência no modelo ATR.

Segundo a investigação, Romano assumiu o comando de aeronaves ATR mesmo sem possuir a experiência mínima exigida pela própria empresa. A regra interna da Voepass previa pelo menos 1 mil horas de voo no modelo para que um piloto pudesse ser promovido a comandante.

De acordo com depoimentos reunidos pela Polícia Federal, Romano havia trabalhado anteriormente com aeronaves Airbus e chegou à Voepass sem experiência prática em ATR. A promoção ocorreu durante a gestão de Rafael Gimenez Rodrigues, que ocupava a chefia de treinamento da companhia.

O comandante Luiz Cláudio de Almeida, ouvido pelos investigadores, afirmou que Romano teria comentado que sua ascensão profissional ocorreu rapidamente devido a uma suposta relação de amizade e troca de favores dentro da chefia.

A PF também apontou que a rápida promoção teria deixado Romano mais vulnerável a pressões internas para não registrar problemas técnicos encontrados durante os voos.

Pilotos que seguiam regras teriam sido preteridos

O comandante Luiz Cláudio de Almeida relatou aos investigadores que pilotos considerados mais rigorosos com os procedimentos operacionais teriam sido deixados de lado nas promoções.

Segundo ele, havia a percepção entre funcionários de que pilotos que seguissem as regras de forma mais rígida poderiam interromper operações ao identificar problemas técnicos, provocando a retirada de aeronaves de serviço.

Almeida afirmou ainda ter presenciado situações em que pilotos teriam sido orientados a não registrar determinadas falhas no livro de bordo.

Em um dos voos realizados com Danilo Romano, Almeida relatou uma pane considerada grave no motor. Segundo o depoimento, Romano inicialmente não teria reconhecido o problema e resistido a comunicar a ocorrência. Almeida afirmou que chegou a ameaçar desembarcar caso a falha não fosse registrada.

Após outros episódios de conflito, Almeida pediu para não voar mais com Romano. A empresa então teria alterado a escala dos dois.

O copiloto Humberto de Campos passou a integrar a tripulação que voava com Romano. Ele posteriormente foi escalado para o voo 2283 e morreu no acidente.

PF relaciona falta de experiência à reação diante do gelo

Outro ponto destacado pela investigação foi a experiência de Romano com o modelo ATR.

Segundo depoimentos analisados pela PF, pilotos que migravam de aeronaves Airbus para o ATR precisavam se adaptar a características diferentes de operação, especialmente em situações de formação de gelo.

O piloto Marcelo Mantovani afirmou que, no ATR, a presença de gelo exige atenção constante e respostas rápidas da tripulação.

Na avaliação apresentada à PF, Romano ainda não teria adquirido experiência suficiente no modelo para lidar adequadamente com esse tipo de situação. A investigação aponta que ele não teria iniciado imediatamente uma descida quando o gelo começou a se formar durante o voo 2283.

Para a Polícia Federal, embora o comandante tivesse habilitação e treinamento formal para operar a aeronave, sua pouca experiência prática no ATR teria contribuído para a forma como a situação foi conduzida.

O relatório da PF afirma que a suposta "coaptação" de Romano aos interesses da gestão, incluindo a não comunicação de falhas no sistema de degelo, teria contribuído para a criação de uma situação de risco.

Acidente matou 62 pessoas

O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, de matrícula PS-VPB, realizava o voo 2283 entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu em uma área residencial de Vinhedo, no interior de São Paulo.

As 62 pessoas que estavam a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido.

O desastre foi o acidente aéreo comercial mais grave registrado no Brasil desde a queda do voo 3054 da TAM, em 2007.

Voepass contesta conclusões

Em nota, a Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi uma prioridade da companhia e negou que tenha deixado de seguir os protocolos de segurança, manutenção e treinamento estabelecidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A empresa declarou que os pilotos eram treinados para enfrentar situações de formação de gelo e que a tripulação do voo 2283 era devidamente habilitada e certificada.

A companhia também informou que colaborou com as investigações, fornecendo documentos, registros operacionais, diários de bordo e relatórios técnicos às autoridades.

Segundo a Voepass, o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e a empresa aguardará os próximos desdobramentos do processo, afirmando que exercerá seu direito de defesa caso necessário.

A companhia reiterou ainda solidariedade aos familiares das vítimas e disse permanecer à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

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