Mensagens e áudios obtidos pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) revelam como empresários e operadores financeiros investigados por ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) utilizavam a facção para solucionar conflitos, movimentar grandes quantias de dinheiro e tratar de supostos pagamentos destinados a policiais.
O material faz parte da investigação que resultou na Operação Janus, deflagrada na última terça-feira (21), contra uma organização apontada como responsável por oferecer serviços financeiros clandestinos ao crime organizado. Ao todo, 13 pessoas foram presas.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), as conversas interceptadas mostram que os investigados recorriam ao chamado "tribunal do crime" da facção para resolver disputas particulares. Em uma das mensagens, um dos investigados afirma: "Quem vai conduzir vai ser o comando", em referência à decisão sobre um conflito envolvendo um imóvel de luxo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista.
De acordo com a investigação, a disputa envolvia um pagamento de R$ 2 milhões relacionado ao imóvel. Em vez de recorrer à Justiça, os envolvidos teriam buscado a mediação da organização criminosa.
As conversas também trazem pedidos de dinheiro que, segundo o Ministério Público, seriam destinados ao pagamento de propinas a agentes públicos. Em uma das mensagens, um investigado solicita R$ 50 mil para "mandar pra polícia". Em outro diálogo, há referência a valores destinados a unidades policiais.
O MP afirma ainda que há indícios de um esquema estruturado de lavagem de dinheiro. Nas conversas, os investigados mencionam movimentação de recursos provenientes do tráfico de drogas e oferecem serviços para ocultar a origem de valores de clientes, utilizando contas bancárias, empresas e criptomoedas.
Outro trecho da investigação mostra a movimentação de grandes quantias em dinheiro vivo. Em uma das mensagens, um investigado informa que uma sacola continha R$ 498,5 mil, valor inferior ao esperado, evidenciando, segundo os promotores, a circulação de grandes somas em espécie.
A representação do Gaeco também cita a atuação da contadora Meire Poza, ex-contadora do doleiro Alberto Youssef. Conforme o Ministério Público, ela teria prestado serviços ao grupo e orientado investigados sobre declarações fiscais e patrimônio. A defesa dos envolvidos não havia se manifestado até a publicação das informações.
Outro ponto destacado pela investigação é a existência de contatos entre integrantes do grupo e oficiais da Polícia Militar. Segundo o MP, mensagens de WhatsApp apontam uma relação de proximidade entre investigados e um coronel da PM. Apesar das citações, os policiais mencionados não são alvos da Operação Janus nem foram denunciados ou acusados formalmente até o momento.
A investigação teve início após a apuração da disputa pelo imóvel na Riviera de São Lourenço. A análise dos celulares apreendidos levou os investigadores a identificar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, corrupção e prestação de serviços financeiros ao crime organizado.
Além das prisões, a Justiça determinou o cumprimento de 18 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de até R$ 10 milhões em bens e contas dos investigados. As investigações continuam para identificar todos os envolvidos e esclarecer a extensão da atuação da organização.