Sob pressão por produtividade, equipes evitam a Rodovia Marechal Rondon devido à alta velocidade e concentram fiscalização no principal acesso do município para bater cota diária de autuações, aponta relato obtido pelo portal SM Conectado.
SÃO MANUEL – As intensas operações da Polícia Rodoviária no trevo de acesso às Cohabs 1 e 2, em São Manuel (a 260 km de São Paulo), ganharam um novo e polêmico capítulo.
Em entrevista exclusiva à equipe de jornalismo do Portal São Manuel Conectado, uma fonte interna da Polícia Rodoviária revelou que a presença constante das forças de segurança no local não decorre apenas de planejamento estratégico de segurança viária, mas sim do cumprimento de uma meta interna de 18 multas diárias por equipe. De acordo com o relato, o trevo de São Manuel tornou-se o ponto preferencial das patrulhas por ser geograficamente o mais próximo e considerado o local "mais fácil" para atingir a cota exigida.
A revelação joga luz sobre as recentes declarações do jornalista e radialista local Sandro Dálio. Em sua transmissão "Sandro Dálio Show", o comunicador já havia questionado a frequência e a aparente "predileção" das autoridades pelo município. "É legal? É legal. Mas não na quantidade que estão fazendo", apontou Dálio, ecoando a insatisfação de motoristas e trabalhadores que se sentem cercados nas vias de acesso à cidade.

Rondon é inviável; trevo de São Manuel vira 'atalho' para bater metas
De acordo com o depoimento da fonte, que falou sob condição de anonimato por temer retaliações internas, a pressão pelo cumprimento das 18 autuações diárias não é exclusiva das equipes que atuam em São Manuel, aplicando-se também a policiais de outros municípios da região. No entanto, as características físicas e o fluxo das vias tornam São Manuel o alvo predileto da corporação.
A fonte explicou que cumprir a meta na Rodovia Marechal Rondon (SP-300), por exemplo, é uma tarefa considerada extremamente difícil pelas equipes de patrulhamento.
"Na Marechal Rondon, os veículos trafegam em altíssima velocidade. Tentar parar os carros ali de forma constante para fiscalização detalhada gera um risco enorme de acidentes e dificulta a abordagem rápida. É quase inviável bater as 18 multas do dia na rodovia expressa", revelou o policial.
Em contrapartida, o trevo de São Manuel obriga os motoristas a reduzirem drasticamente a velocidade para contornar o anel viário ou acessar as Cohabs, tornando-se o cenário perfeito para interceptações seguras e em massa.
"O trevo de São Manuel é o ponto mais próximo da base para muitas equipes e, de longe, o mais fácil para trabalhar. Os condutores já passam devagar, o fluxo local de trabalhadores e motociclistas é contínuo e qualquer detalhe administrativo vira autuação rápida. É onde a meta do dia é garantida sem sobressaltos", completou.

O impacto humano: relatos de quem caiu na 'engrenagem'
Por trás dos números frios e das metas de produtividade da corporação, existem relatos de trabalhadores locais que viram suas rotinas e orçamentos severamente impactados pelo rigor implacável aplicado no trevo. A reportagem do Portal SM Conectado conversou com moradores que se sentem vítimas dessa engrenagem.
O cansaço multado após o plantão
Uma enfermeira de 34 anos, moradora de uma das Cohabs, aceitou relatar sua experiência sob a condição de não ter seu nome divulgado. Ela havia acabado de cumprir um exaustivo plantão de 12 horas em um hospital da região e retornava para casa no início da manhã quando foi parada no trevo.
"Eu estava exausta, só pensava em ver meus filhos e dormir. Fui parada e o policial deu uma volta minuciosa no meu carro. Eu sabia que estava tudo em ordem com os documentos e os pneus. Foi quando ele apontou para o para-brisa. Havia um pequeno trinco na parte inferior do vidro, de uma pedrinha que bateu na rodovia dias antes, fora do meu campo de visão direta. Ele não quis saber. Lavrou a autuação por conduzir veículo com equipamento obrigatório em desacordo e o carro ficou retido até que um familiar buscasse. Chorei de cansaço e de injustiça. O valor daquela multa comprometeu quase 20% do meu salário do mês."
A dor de quem transporta o sustento da terra
Outro relato contundente vem de um motorista de 58 anos, conhecido na comunidade por realizar o transporte de trabalhadores rurais para as lavouras de cana e laranja da região. Ele dirige uma van antiga, sua única ferramenta de trabalho para sustentar a esposa e um neto.
Em uma manhã recente, enquanto transportava um grupo de bóias-frias ainda antes do amanhecer, ele foi abordado na entrada do trevo.
"Eles vistoriaram tudo. A documentação do pessoal estava certa, o cinto de segurança de todo mundo afivelado. Mas o policial cismou com o desgaste da borracha de vedação de uma das portas traseiras, dizendo que oferecia risco de segurança para os passageiros, além de uma lâmpada da placa que, segundo ele, estava queimada — embora eu tivesse testado antes de sair de casa. Levei duas multas pesadas de uma vez só e o veículo foi apreendido para o pátio. Tive que ver os trabalhadores descendo da van, no escuro da manhã, sem saber como iam chegar ao trabalho para garantir a diária deles. Eu fiquei ali na beira da pista, sem chão, sabendo que o que eu ia ganhar na semana inteira não pagaria a taxa do guincho, o pátio e o valor das multas. A gente acorda às quatro da manhã para trabalhar honestamente e é tratado como criminoso."
Histórico de debates e ilegalidade de cotas
A prática de estabelecer metas de autuações — popularmente associada à "indústria da multa" — colide com as diretrizes do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), que prevê que a fiscalização deve ter caráter prioritariamente educativo e de preservação de vidas, e não finalidade arrecadatória ou punitiva para fins de avaliação de desempenho.
O trevo que liga as Cohabs 1 e 2 ao restante da região é historicamente um ponto de atrito. Em anos anteriores, a comunidade e a imprensa local, lideradas pelo então vereador Anísio Pete, chegaram a acionar o comando da Polícia Rodoviária para cobrar bom senso e debater o impacto econômico e social das operações sobre a classe trabalhadora. Embora o anel viário pertença ao Estado e seja administrado pelo DER (Departamento de Estradas de Rodagem), garantindo amparo jurídico para a atuação policial, moradores argumentam que o rigor excessivo asfixia a rotina do município.
Com as novas revelações sobre a pressão por produtividade e a escolha deliberada de São Manuel como "ponto facilitador" de metas regionalizadas, lideranças locais e motoristas cobram agora um posicionamento oficial do comando da Polícia Rodoviária do Estado de São Paulo e da Secretaria de Segurança Pública (SSP) sobre os critérios de fiscalização adotados na região.