O avanço da Comissão Especial de Inquérito (CEI) nº 01/2026 na Câmara Municipal de São Manuel desenha um cenário de crescente encurralamento para a vereadora Letícia Arcari Castaldi de Silva. Investigada por suposta quebra de decoro parlamentar após proferir acusações generalizadas contra seus pares na tribuna, a parlamentar agora adota uma estratégia clássica de sobrevivência política: a tentativa de desviar o foco do objeto central da investigação por meio de uma cortina de fumaça institucional.

Durante as últimas audiências, a linha de defesa — capitaneada pelo advogado Leroy Amarilha Freitas — buscou transferir o debate do decoro da vereadora para a lisura do programa habitacional "Minha Casa, Minha Vida" no município. Ao emparedar a secretária de Assistência Social, Renata Silva, sobre a destinação de cotas e a acessibilidade digital da população vulnerável, a defesa tentou validar retroativamente as falas de Letícia.

A manobra, contudo, esbarra na ausência de materialidade. Questionada pela relatora Vanessa Di Lello e pelo membro da comissão, vereador Amarilton, sobre as supostas "várias mensagens intimidadoras e denúncias" que teriam motivado seu discurso, Letícia vacilou. Entre consultas nervosas ao seu advogado, limitou-se a dizer que "não precisava dizer quantas" e que tais provas "possivelmente podem até existir" em seu celular. O que se viu no plenário foi o uso de evidências invisíveis para sustentar acusações graves, configurando uma tática frágil que não se sustenta sob o rigor técnico da comissão.
O alto preço de uma "fiscalização" sem lastro
A fatura política dessa pretensa estratégia de "fiscalização" já começou a chegar para a parlamentar, e o preço cobrado é alto: o desgaste contínuo de sua imagem pública e um profundo descrédito perante o eleitorado e seus pares. Ao transformar boatos de redes sociais em munição de tribuna sem a devida checagem, a vereadora fragilizou o próprio papel fiscalizador do Legislativo, convertendo o debate político em um espetáculo de acusações sem base documental.

Isolamento e desidratação: O cerco jurídico e político
O comportamento de Letícia diante da CEI reflete o ápice de um processo de desidratação política que a parlamentar vem sofrendo nos últimos meses. Fontes de bastidores apontam que a instauração do procedimento foi evitada ao máximo pela vereadora, que buscou diferentes saídas para estancar a crise antes que ela ganhasse a atual dimensão pública.
Há uma ironia histórica que ecoa nos corredores da Casa de Leis: a mesma vereadora que, em outrora, foi peça-chave e capitaneou processos que culminaram na cassação de sete parlamentares no município, hoje se vê na posição oposta, figurando como o alvo principal de uma iminente e possível perda de mandato.
Esse recuo estratégico não é isolado. A vereadora coleciona derrotas sucessivas no campo jurídico e político, o que tem culminado em um severo isolamento dentro do Legislativo são-manuelense. Sem o apoio de blocos partidários expressivos e desprovida de um corpo robusto de testemunhas que pudessem validar sua narrativa de "perseguição", a parlamentar compareceu ao interrogatório desguarnecida de capital político. As únicas "testemunhas visíveis" de seu esforço político foram dois parlamentares que, timidamente, marcaram presença na CEI. No entanto, mesmo esses apoiadores governaram seu suporte na base do distanciamento técnico: nenhum deles teve acesso ou soube precisar a existência das tais provas guardadas no celular da investigada.
A tentativa de transformar sua fala em uma "demanda popular legítima" esvaziou-se no momento em que ela admitiu não ter procurado nenhum órgão oficial ou secretaria para checar a veracidade dos boatos antes de lançá-los ostensivamente no plenário.

À mercê das próprias palavras
"Eu não apresentei uma denúncia, eu trouxe ao plenário um questionamento da população", justificou a vereadora ao ser confrontada pelo vereador Amarilton.
Ao chancelar que sua única fonte de informação sobre o andamento das moradias populares eram as transmissões ao vivo do prefeito nas redes sociais, Letícia desarmou a própria narrativa de que detinha informações privilegiadas sobre irregularidades.
Ao fim e ao cabo, a estratégia de focar nas falhas de comunicação da Secretaria de Assistência Social — que admitiu a ausência de vídeos explicativos nesta fase do processo — pode até ecoar em setores da opinião pública, mas tem efeito nulo no colegiado técnico da CEI. Sem o respaldo de provas concretas, desprovida de testemunhas efetivas e politicamente isolada, a vereadora Letícia Castaldi encontra-se agora em sua situação mais vulnerável: refém e à mercê de suas próprias declarações.