O número de denúncias relacionadas a maus-tratos e criação inadequada de animais domésticos disparou no estado de São Paulo nos últimos anos. Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) apontam que 2025 registrou o maior volume de ocorrências da série histórica, revelando tanto o avanço da conscientização da população quanto a persistência de casos de negligência, abandono e violência contra cães e gatos.
Somente em 2025, a Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (Depa) recebeu 20.916 denúncias de crimes contra animais em todo o estado. Apenas no primeiro bimestre deste ano, já foram contabilizadas 4.783 ocorrências.
Na capital paulista, os registros de criação irregular de animais cresceram de forma expressiva. Em 2024, foram 1.976 protocolos registrados. Já em 2025, o número saltou para 10.912 denúncias, um aumento superior a cinco vezes. Em 2026, até o dia 29 de março, a cidade já acumulava 2.134 registros, superando o total de 2024.
Segundo especialistas e autoridades, a maioria das vítimas são animais domésticos, principalmente cães e gatos. Os casos mais comuns envolvem falta de água, alimentação inadequada, ausência de atendimento veterinário, abandono e manutenção dos animais em ambientes insalubres.
A delegada Francine Gonçalves, titular da 3ª Delegacia de Polícia de Crimes contra os Animais, afirma que a conscientização da população teve papel fundamental no crescimento das denúncias.
“Hoje as pessoas entendem melhor que os animais são protegidos por lei e se sentem mais responsáveis por denunciar”, destacou.
Entre os casos mais chocantes investigados pela polícia está o de um homem que matou o cachorro do vizinho após se irritar com os latidos do animal. Segundo a delegada, o suspeito lançou o cão contra um vergalhão de obra, provocando a morte do animal por transfixação.
Bairros com mais denúncias
Em 2026, até março, o Jardim dos Manacás liderava os registros de criação irregular na capital, com 61 protocolos. Também aparecem entre os bairros com maior número de denúncias Vila Bela, Lageado, Americanópolis, Morro do Índio e Vila Medeiros.
Já em 2025, a Zona Sul concentrou grande parte dos registros, com destaque para Santo Amaro, Jardim das Flores e Jardim Ângela.
Quando a criação inadequada vira crime
A legislação brasileira considera maus-tratos qualquer ação ou omissão que provoque sofrimento aos animais. Entre as situações previstas estão:
- Falta de água e alimentação;
- Abandono;
- Agressões físicas;
- Ambientes sem higiene;
- Falta de assistência veterinária;
- Manter animais em espaços inadequados.
Nos casos envolvendo cães e gatos, a Lei Federal 9.605 prevê pena de reclusão de dois a cinco anos, além de multa e proibição da guarda do animal. A punição pode aumentar caso o animal morra.
Segundo Francine Gonçalves, o sofrimento não precisa ocorrer apenas por violência física para configurar crime.
“Quando alguém deixa um animal sem água, sem comida ou sem cuidados básicos, sabe — ou deveria saber — que isso causa dor e sofrimento”, explicou.
Violência contra animais cresce também na internet
Além dos casos presenciais, organizações de proteção animal alertam para o aumento da violência contra animais no ambiente digital.
O Instituto Ampara Animal informou que mais de 83 mil links com cenas de crueldade animal foram identificados em plataformas internacionais apenas em 2024.
Dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo, indicam que entre 10 e 15 animais são torturados todas as noites em transmissões ao vivo na internet no Brasil.
Segundo a ONG, adolescentes entre 11 e 13 anos estão entre os principais alvos de grupos virtuais que promovem desafios envolvendo violência contra animais.
Um dos casos mais graves relatados pela polícia envolveu uma live acompanhada por mais de 800 pessoas, na qual um filhote de gato foi torturado até a morte.
Crescimento da população pet
O aumento das denúncias também acompanha o crescimento da população de animais domésticos no Brasil.
Pesquisa do Instituto Quaest mostrou que o país possui a terceira maior população pet do mundo. Em São Paulo, os registros e microchipagens de animais também aumentaram nos últimos anos, passando de 98 mil em 2021 para quase 134 mil em 2025.
Especialistas apontam ainda uma mudança cultural na relação entre tutores e animais, cada vez mais tratados como integrantes da família.
Serviços públicos e proteção animal
A Prefeitura de São Paulo mantém programas gratuitos de castração, vacinação, microchipagem e adoção de cães e gatos. A cidade também conta com quatro hospitais veterinários públicos distribuídos pelas zonas leste, norte, sul e oeste.
Segundo a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap), mais de 1,7 milhão de animais já foram castrados pelo município.
Como denunciar
Casos de criação inadequada podem ser denunciados pelo Portal SP156, telefone 156 ou presencialmente nas subprefeituras da capital.
Já situações de maus-tratos devem ser comunicadas à Polícia Civil ou registradas na Delegacia Eletrônica de Proteção Animal. Em casos de flagrante, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.