Foto: Gustavo Honório/g1
Um dia após a reintegração de posse que retirou 33 famílias de um edifício ocupado na esquina das ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, nos Jardins, em São Paulo, o imóvel revelou um cenário de abandono, sujeira e degradação estrutural em uma das regiões mais valorizadas da capital paulista.
Entre lojas de luxo, restaurantes sofisticados e apartamentos milionários, o prédio acumulava sinais de deterioração após anos de disputas judiciais, ocupações e falta de manutenção.
Durante visita realizada na quinta-feira (7), trabalhadores atuavam na limpeza do edifício enquanto pedreiros concretavam janelas e acessos para impedir novas invasões. Viaturas da Guarda Civil Metropolitana (GCM), fitas de isolamento e paletes espalhados pela entrada davam ao local um clima de operação policial.

Foto: Gustavo Honório/g1
O forte cheiro de urina podia ser sentido ainda do lado de fora. No interior do prédio, a situação era ainda mais crítica: paredes tomadas por mofo, pisos destruídos, tetos com buracos, presença de ratos e até fezes humanas em alguns cômodos.
Apesar do estado precário, objetos deixados para trás mostravam que o local serviu de moradia até a véspera da desocupação. Entre os itens encontrados estavam roupas espalhadas, brinquedos, um relógio pendurado na parede, pelúcias, um varal de chão e até um DVD da banda Queen.
Em um dos apartamentos, uma banheira — símbolo de luxo — contrastava com a degradação do imóvel.
Moradores e trabalhadores da região afirmaram que o prédio gerava transtornos há anos. Um professor de educação física que trabalha ao lado do edifício disse que a desocupação trouxe “alívio” para quem convive diariamente com o local.
“Era uma bagunça”, afirmou, cobrindo o nariz com a camiseta devido ao mau cheiro.

Foto: Gustavo Honório/g1
Um vendedor ambulante relatou ainda que suspeitos de furtos frequentemente entravam no prédio. Segundo ele, havia denúncias de bicicletas de alto valor sendo levadas para o local.
O responsável pela limpeza informou que cerca de R$ 30 mil já foram gastos nos trabalhos iniciais e reclamou da falta de apoio da Prefeitura.
Reintegração de posse
A reintegração ocorreu na manhã de quarta-feira (6) com apoio da Polícia Militar e do Poder Judiciário. Segundo a PM, a ação aconteceu de forma pacífica.
O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a desocupação após laudos técnicos apontarem risco iminente de desabamento e degradação estrutural do prédio. A Defesa Civil também recomendou a retirada urgente dos ocupantes.
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, as 33 famílias cadastradas no imóvel já recebiam auxílio-aluguel e acompanhamento da rede socioassistencial.
Disputa começou em 2004
Os conflitos envolvendo o edifício começaram em 2004, quando uma construtora tentou comprar todos os apartamentos para construir um empreendimento de luxo. Dois proprietários, no entanto, se recusaram a vender suas unidades.
Segundo o processo judicial, a empresa responsável pela maior parte dos apartamentos aprovou altas taxas condominiais, que chegaram a cerca de R$ 7 mil, o que teria agravado os conflitos internos.
O prédio acabou interditado pela prefeitura e permaneceu fechado por cinco anos. Após ser liberado, voltou a ser ocupado diversas vezes.
Em 2015, integrantes da União dos Sem Teto ocuparam o imóvel, deixando o local meses depois por decisão judicial. Já em 2016, cerca de 120 pessoas vindas de uma ocupação no Hospital Panamericano, em Alto de Pinheiros, passaram a morar no endereço.
Na época, moradores relataram preconceito por viverem em uma ocupação em plena Rua Oscar Freire, um dos endereços mais nobres da cidade de São Paulo.