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Vizinhos da Escola Estadual Professor Atílio Innocenti admitem ter recebido propostas para vender endereço e garantir vaga
Por Moisés Moura
Publicado em 07/01/2026 19:36
São Manuel

O caso envolvendo a negativa de matrícula de uma aluna de 10 anos no 6º ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Professor Atílio Innocenti escancara um problema que vai muito além de uma simples vaga escolar. Trata-se de uma denúncia grave que atinge o coração do ensino público em São Manuel. Mas afinal, quais critérios estão sendo realmente utilizados para definir quem tem acesso à escola?

Após a veiculação da matéria pela TV São Manuel Conectado, que inicialmente parecia tratar apenas de uma situação pontual, novos e alarmantes elementos vieram à tona. Moradores vizinhos da escola relataram que receberam propostas para vender o endereço, transformando a residência em moeda de troca para garantir vaga em uma unidade pública. Como um direito constitucional passou a ser tratado como mercadoria? E, mais grave, quem está por trás dessas ofertas?

É preciso deixar claro que a servidora municipal investigada pode ser apenas uma peça de um quebra-cabeça muito maior. De acordo com a apuração da reportagem, há indícios de que o suposto esquema funcione desde 2021, envolvendo alteração de endereços, uso indevido de sistemas públicos e, segundo denúncias, até negociação financeira para emissão de comprovantes. Há dinheiro envolvido? Quantas pessoas participariam desse possível esquema?

Outro ponto que reforça as suspeitas são relatos de pais que afirmam ter recebido convites diretos da própria escola para matricular determinados estudantes. Desde quando uma escola pública escolhe quem pode ou não estudar em suas dependências? Quem define essas prioridades e com base em quê?

As denúncias avançam ainda mais quando motoristas de vans escolares particulares confirmam o transporte diário de alunos vindos de Pratânia e Areiópolis para a Escola Estadual Professor Atílio Innocenti. Se há estudantes de outros municípios ocupando vagas, por que crianças que moram a menos de um quilômetro da escola tiveram suas matrículas negadas? Quem autorizou essa distorção?

Não haveria qualquer controvérsia se estivéssemos falando de uma escola particular. Nesse contexto, critérios próprios e seletividade fazem parte da lógica privada. Mas estamos tratando de uma escola pública, mantida com recursos da sociedade. O que está acontecendo com os princípios constitucionais que regem a educação pública?

A Constituição Federal de 1988 é clara ao afirmar que a educação é direito de todos e dever do Estado. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante o acesso à escola pública próxima da residência. Quando esse direito é violado, estamos diante de uma simples falha administrativa ou de algo muito mais grave?

A soma de denúncias, venda de endereços, convites seletivos, alunos de outros municípios e relatos de um esquema que pode operar há anos, levanta uma questão central. Quem é o verdadeiro responsável por manter tudo isso funcionando em silêncio?

A educação pública não pode ser tratada como favor, barganha ou privilégio. Ela é um direito constitucional. Quantas crianças tiveram seus direitos negados ao longo dos anos para que esse possível esquema permanecesse oculto? E, principalmente, até quando situações como essa continuarão sem respostas claras?

 

Cabe agora aos órgãos competentes investigar com profundidade, identificar todos os envolvidos e não apenas o elo mais frágil da corrente, e devolver à educação pública o que nunca deveria ter sido retirado, legalidade, justiça e igualdade.

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