O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) afirma que vereadores de Bauru (SP) receberam pagamentos de propina da empresa Estre Ambiental para aprovar o projeto de concessão dos serviços de gestão do lixo no município. As suspeitas constam em novos documentos que integram as investigações da Operação Cavalo de Troia.
Segundo a Promotoria, as negociações teriam contado com a atuação direta do ex-secretário municipal de Governo Renato Purini, marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD). Ele é investigado por suspeita de participação em um esquema de direcionamento da concessão dos serviços de resíduos sólidos.
Um dos pagamentos destacados pelo Ministério Público foi de R$ 750 mil, realizado em 8 de setembro de 2026, mesma data em que a Câmara Municipal votou o projeto de lei que autorizava a concessão do serviço de gestão de resíduos.
De acordo com o MP, mensagens analisadas durante a investigação indicariam que Purini manteve intensa articulação política naquele dia para garantir a aprovação da proposta.

Repasses teriam ultrapassado R$ 4 milhões
A investigação aponta que os pagamentos eram intermediados pela empresa Core Investimentos. Notas fiscais emitidas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, sob a justificativa de contratos de consultoria, somariam quase R$ 4 milhões.
O Ministério Público considera que os documentos indicam um fluxo financeiro estruturado, e não pagamentos isolados.
Em manifestação contra o pedido da Estre Ambiental para desbloquear bens retidos pela Justiça, a Promotoria também mencionou pagamentos de R$ 750 mil, R$ 650 mil e R$ 560 mil que teriam sido destinados a agentes públicos.
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 20 milhões em bens e ativos financeiros de quatro investigados.
Ex-secretário está preso
Renato Purini foi preso em 16 de outubro, durante a segunda fase da Operação Cavalo de Troia. Ele está na Penitenciária II de Potim, no Vale do Paraíba.
Segundo o Ministério Público, o ex-secretário teria atuado como uma espécie de articulador político do grupo investigado, participando de negociações relacionadas à concessão.
A defesa de Purini foi procurada pela reportagem original, mas não havia se manifestado até a última atualização. Em depoimento ao Ministério Público, realizado por videoconferência, o ex-secretário optou por permanecer em silêncio.
Concessão bilionária
O projeto investigado previa a concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos de Bauru por 30 anos, com valor estimado em mais de R$ 5,2 bilhões.
O procedimento foi suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) após questionamentos relacionados ao edital.
As investigações apuram suspeitas de direcionamento da licitação, pagamentos de vantagens indevidas, compartilhamento de informações reservadas e interferência na preparação dos estudos técnicos e dos critérios da concorrência.
Prefeita é investigada em comissão na Câmara
A prefeita Suéllen Rosim não é apontada como alvo da investigação criminal do Gaeco nas informações divulgadas sobre essa fase da operação.
Entretanto, ela é investigada por uma Comissão Processante aberta na Câmara Municipal, que apura eventual omissão ou negligência na condução do processo de concessão.
Durante depoimento à comissão, Suéllen afirmou que o marido não participava das decisões sobre o edital, negou ter recebido vantagens indevidas e disse desconhecer encontros entre Purini e representantes da Estre Ambiental.
Em nota, a Prefeitura informou que colabora com as autoridades e que continuará fornecendo documentos e esclarecimentos necessários às investigações.
A Estre Ambiental, por sua vez, declarou que está colaborando integralmente com as apurações e que não pretende participar da licitação do lixo em Bauru.
As investigações continuam, e as suspeitas apresentadas pelo Ministério Público ainda dependem de apuração e decisão judicial.