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Prefeitura de São Manuel tenta reaparelhar GCM, mas crise interna e rejeição ao secretário acentuam desgaste na corporação
Apesar da entrega de novos veículos, Guarda Civil enfrenta insatisfação de 90% do efetivo, sucateamento, munição vencida e denúncia ao MP por comissão correcional composta pela própria cúpula operacional.
Por Moisés Moura (MTB 01022885/SP)
Publicado em 28/10/2026 17:45 • Atualizado 28/10/2026 17:54
São Manuel

Apuração do Portal São Manuel Conectado revela insatisfação de 90% do efetivo, episódios de sucateamento, munição vencida e denúncia ao MP; guardas ouvidos sob anonimato apontam que problema é restrito à gestão da pasta, e não ao Executivo.

SÃO MANUEL — A recente entrega de uma nova viatura e de três motocicletas pela Prefeitura de São Manuel buscava demonstrar investimento e avanço na segurança pública do município. Contudo, os esforços da administração municipal ocorrem em meio a um cenário de forte tensão e rebelião interna no seio da Guarda Civil Municipal (GCM). Uma apuração exclusiva do Portal São Manuel Conectado, com base em relatórios oficiais e no depoimento de fontes internas, revela que a crise na corporação se acentuou nos últimos meses, impulsionada por um desgaste focado na liderança da pasta, e não em diretrizes da Prefeitura.

Foto mostra a nova viatura da GCM, entregue ontem.

Sob a condição de estrito sigilo para preservar suas identidades e resguardá-los de eventuais retaliações, vários guardas municipais foram ouvidos pela reportagem. Os relatos convergentes apontam que a rejeição ao nome do secretário municipal de Segurança Pública e Trânsito, Ricardo Quintino, arrasta-se há pelo menos dois anos e atinge marcas alarmantes: cerca de 90% do efetivo manifesta insatisfação direta com o modelo de gestão do titular.

A foto acima mostra viaturas sem rádio comunicador para comunicação entre elas, antenas quebradas e sinais da situação de sucateamento da frota.

Segundo os agentes ouvidos, enquanto a Prefeitura se esforça na ponta para adquirir e entregar novos equipamentos à população, o cotidiano operacional da tropa ainda enfrenta entraves severos. Guardas relatam episódios de sucateamento, veículos rodando sem rádio comunicador e até mesmo lotes de munições com prazo de validade vencido.

"A Prefeitura tem buscado equipar a instituição, mas a crise de governança e o desgaste com a gestão do secretário geraram um clima insustentável. A insatisfação é praticamente generalizada na tropa", relatou um dos servidores ouvidos sob anonimato.

De acordo com relatos de guardas municipais, havia uma divisão interna entre grupos, marcada por disputas de poder e divergências dentro da corporação. Segundo os relatos, esses grupos teriam sido classificados pelo secretário como “rebeldes” ou “indisciplinados”.

O cenário, porém, teria mudado. Segundo apuração da coluna, atualmente, um dos grupos teria como principal objetivo a saída de Quintino do cargo. Também há relatos de brigas, desavenças, falta de organização e problemas relacionados à disciplina.

 

A resistência ao nome do secretário, que está à frente da pasta há quase dois anos, evidencia a existência de divergências internas e de um ambiente de tensão na corporação.

Cúpula na Corregedoria e representação no MP

O descontentamento da tropa atingiu o ápice jurídico após a publicação da Portaria nº 155/2025 no Diário Oficial do Município. O ato chancelado pela pasta designou quatro servidores para compor a Comissão Processante da Corregedoria do órgão: João Braga Neto (presidente), Reinaldo de Freitas, Wualisson Barbosa Dias e Diego Fernando Galdino de Paula.

Ao cruzar os dados dos atos normativos com a folha de pagamento do Portal da Transparência, a reportagem constatou que os quatro nomeados exercem, simultaneamente, o cargo/função de subcomandante da GCM.

A sobreposição de atribuições motivou uma representação anônima protocolada no Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). A denúncia sustenta que a indicação aprovada pelo secretário Ricardo Quintino cria um "escudo correcional", na medida em que a própria cúpula operacional passa a controlar a apuração de faltas graves e eventuais desvios de conduta da tropa e de seus pares.

Estrutura questionada no MP-SP:
┌─────────────────────────────────────────────────────────────┐
│             Secretaria de Segurança Pública                 │
└──────────────────────────────┬──────────────────────────────┘
                               │
            ┌──────────────────┴──────────────────┐
            ▼                                     ▼
┌──────────────────────┐              ┌──────────────────────┐
│  Comando Operacional │              │Corregedoria (Atuante)│
│ (4 Subcomandantes)   │ ═══════════► │ (Mesmos 4 Membros)   │
└──────────────────────┘  Conflito de └──────────────────────┘
                          Interesses

Afronta legal e risco de improbidade

A representação encaminhada à Promotoria argumenta que a portaria afronta o artigo 13 do Estatuto Geral das Guardas Municipais (Lei Federal nº 13.022/2014), que exige expressamente autonomia e independência do órgão correcional em relação à chefia e ao comando da corporação.

O documento aponta ainda violação aos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e eficiência na Administração Pública (Artigo 37 da Constituição Federal), destacando que a indicação deliberada de membros em manifesto conflito de interesses pode configurar ato de improbidade administrativa por parte da gestão responsável pela assinatura do documento.

Entre os pedidos formulados ao MP-SP, constam:

  • Abertura de Inquérito Civil;

  • Expedição de Recomendação Administrativa para anulação imediata da Portaria nº 155/2025;

  • Recomposição do órgão correcional por servidores isentos e sem funções de comando.

Outro lado

 

O Portal São Manuel Conectado procurou o secretário de Segurança Pública e Trânsito, Ricardo Quintino, e a pasta por ele comandada para questionar a apuração sobre a rejeição do efetivo, os relatos de sucateamento e munições vencidas, além dos critérios para a nomeação dos membros da comissão processante. O secretário foi procurado por telefone, mas não atendeu às ligações até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações oficiais.

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