Apuração do Portal São Manuel Conectado revela insatisfação de 90% do efetivo, episódios de sucateamento, munição vencida e denúncia ao MP; guardas ouvidos sob anonimato apontam que problema é restrito à gestão da pasta, e não ao Executivo.
SÃO MANUEL — A recente entrega de uma nova viatura e de três motocicletas pela Prefeitura de São Manuel buscava demonstrar investimento e avanço na segurança pública do município. Contudo, os esforços da administração municipal ocorrem em meio a um cenário de forte tensão e rebelião interna no seio da Guarda Civil Municipal (GCM). Uma apuração exclusiva do Portal São Manuel Conectado, com base em relatórios oficiais e no depoimento de fontes internas, revela que a crise na corporação se acentuou nos últimos meses, impulsionada por um desgaste focado na liderança da pasta, e não em diretrizes da Prefeitura.
Foto mostra a nova viatura da GCM, entregue ontem.
Sob a condição de estrito sigilo para preservar suas identidades e resguardá-los de eventuais retaliações, vários guardas municipais foram ouvidos pela reportagem. Os relatos convergentes apontam que a rejeição ao nome do secretário municipal de Segurança Pública e Trânsito, Ricardo Quintino, arrasta-se há pelo menos dois anos e atinge marcas alarmantes: cerca de 90% do efetivo manifesta insatisfação direta com o modelo de gestão do titular.



A foto acima mostra viaturas sem rádio comunicador para comunicação entre elas, antenas quebradas e sinais da situação de sucateamento da frota.
Segundo os agentes ouvidos, enquanto a Prefeitura se esforça na ponta para adquirir e entregar novos equipamentos à população, o cotidiano operacional da tropa ainda enfrenta entraves severos. Guardas relatam episódios de sucateamento, veículos rodando sem rádio comunicador e até mesmo lotes de munições com prazo de validade vencido.
"A Prefeitura tem buscado equipar a instituição, mas a crise de governança e o desgaste com a gestão do secretário geraram um clima insustentável. A insatisfação é praticamente generalizada na tropa", relatou um dos servidores ouvidos sob anonimato.
De acordo com relatos de guardas municipais, havia uma divisão interna entre grupos, marcada por disputas de poder e divergências dentro da corporação. Segundo os relatos, esses grupos teriam sido classificados pelo secretário como “rebeldes” ou “indisciplinados”.
O cenário, porém, teria mudado. Segundo apuração da coluna, atualmente, um dos grupos teria como principal objetivo a saída de Quintino do cargo. Também há relatos de brigas, desavenças, falta de organização e problemas relacionados à disciplina.
A resistência ao nome do secretário, que está à frente da pasta há quase dois anos, evidencia a existência de divergências internas e de um ambiente de tensão na corporação.
Cúpula na Corregedoria e representação no MP
O descontentamento da tropa atingiu o ápice jurídico após a publicação da Portaria nº 155/2025 no Diário Oficial do Município. O ato chancelado pela pasta designou quatro servidores para compor a Comissão Processante da Corregedoria do órgão: João Braga Neto (presidente), Reinaldo de Freitas, Wualisson Barbosa Dias e Diego Fernando Galdino de Paula.
Ao cruzar os dados dos atos normativos com a folha de pagamento do Portal da Transparência, a reportagem constatou que os quatro nomeados exercem, simultaneamente, o cargo/função de subcomandante da GCM.
A sobreposição de atribuições motivou uma representação anônima protocolada no Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). A denúncia sustenta que a indicação aprovada pelo secretário Ricardo Quintino cria um "escudo correcional", na medida em que a própria cúpula operacional passa a controlar a apuração de faltas graves e eventuais desvios de conduta da tropa e de seus pares.

Afronta legal e risco de improbidade
A representação encaminhada à Promotoria argumenta que a portaria afronta o artigo 13 do Estatuto Geral das Guardas Municipais (Lei Federal nº 13.022/2014), que exige expressamente autonomia e independência do órgão correcional em relação à chefia e ao comando da corporação.
O documento aponta ainda violação aos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e eficiência na Administração Pública (Artigo 37 da Constituição Federal), destacando que a indicação deliberada de membros em manifesto conflito de interesses pode configurar ato de improbidade administrativa por parte da gestão responsável pela assinatura do documento.
Entre os pedidos formulados ao MP-SP, constam:
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Abertura de Inquérito Civil;
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Expedição de Recomendação Administrativa para anulação imediata da Portaria nº 155/2025;
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Recomposição do órgão correcional por servidores isentos e sem funções de comando.
Outro lado
O Portal São Manuel Conectado procurou o secretário de Segurança Pública e Trânsito, Ricardo Quintino, e a pasta por ele comandada para questionar a apuração sobre a rejeição do efetivo, os relatos de sucateamento e munições vencidas, além dos critérios para a nomeação dos membros da comissão processante. O secretário foi procurado por telefone, mas não atendeu às ligações até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações oficiais.